domingo, 20 de setembro de 2009

Desejo.

 
 
Toquei o interfone exatamente às 18h45min. Essa fora uma recomendação expressa. A voz sensual atendeu, já orientando o trajeto até o escritório. Os jardins daquela bela casa bem podiam ser o próprio Éden. Coisa de cinema! Aquela calma perfumada e colorida fazia nossa alma leve e alegre. Pássaros se divertiam em vôos acrobáticos, saudando cada cor e saboreando os aromas mais sutis.

A casa estava às escuras. O silêncio repousava pelos cômodos, como um morador antigo e zeloso. Livros na estante denunciavam a preferência intelectual do solitário morador. Uma organização impecável, e decoração sóbria, era a marca do ambiente. Era agradável, embora houvesse um ar de tristeza. Isso contrastava com o ambiente externo. Onde a vida nascia a cada instante.

Já no escritório, sentei em um confortável sofá de couro marrom. O mogno era o próprio escritório. Austeridade. Calor vibrante e aconchegante. Havia certo perfume no ar.

Quando fui contratado para cuidar das finanças daquela produtora de modas, foi uma sensação indescritível. Havia uma leveza no ar da empresa. Elegância. Simplicidade, que descreve a suprema sofisticação. Assim! Desconcertantemente bela.

Mas houve uma tragédia que abalou a todos. A morte da empresária, dona da produtora. A número um, da moda.

Sua filha, Clara, sucessora natural, mergulhou em profunda depressão, interrompendo uma carreira brilhante, já que seguia os passos da mãe. Por pouco a produtora não fecha as portas. Como os contratos eram longos, e a marca fortíssima, foi possível, graças a uma administração firme e competente, manter tudo funcionando, embora a pressão dos concorrentes tenha aumentado substancialmente, com a aposta de que a morte da dona do negócio o mataria também.

Nesse momento delicado, consegui me destacar. Cheguei a Diretor Financeiro e, posteriormente, criada a Diretoria de Planejamento e Novos Negócios, fui para ela deslocado. Fomos felizes, ao apostar na criação de um programa de TV. Nele, a empresa começava a ditar, novamente, as tendências da moda no país. Sucesso!
Mergulhado nos meus pensamentos, fui despertado pelo som de passos. Eram firmes. A porta se abre. Uma visão de beleza e encantamento. A mulher de cabelos longos, claros e finos; nariz afilado e olhos amendoados vivos; corpo esguio e musculatura definida entra como que flutuando pelo escritório. Um sorriso com os olhos e um franzir de boca, que apresentou covinhas lindas, foi a saudação. Nenhuma palavra.

Sentou-se. Cabelos soltos e brilhosos. Ajeitou-os antes de ligar o lap top sobre a mesa. Vestia uma blusa de fina sêda branca. Mangas curtíssimas e decote pronunciado. Era possível notar os detalhes do contorno de seu sutiã, sob a delicada sêda. A saia cinza dava o tom de sobriedade, embora justa. Os quadris e pernas fortes eram alinhados proporcionalmente, fazendo aquela silhueta parecer especial.

Pediu-me que sentasse à sua frente.

Estendendo a mão, se apresentou com simpatia e gentileza: "sou Clara, disse". Apresentei-me com formalidade. Não a conheci em momento algum e agora estava ali. Precisava colocá-la a par dos negócios, pois estava determinada a voltar. Era a presidente do conselho de administração, mas queria ação. Estava revigorada, agora que a depressão passou, superando o trauma da prematura morte da mãe.

Preparei a apresentação e coloquei a mídia no projetor, para inicarmos nosso trabalho.

Duas horas depois, após discutirmos pontos cruciais do mundo da moda, a visão que eu tinha daquela mulher havia mudado. Não se tratava de uma socialite mimada, mas sim de uma empresária com visão de futuro e determinação suficiente para alcançar qualquer objetivo. Simpática e surpreendentemente divertida, entremeava observações técnicas com piadinhas maldosas sobre a concorrência. Era astuta e enérgica. Mas tinha uma voz um tanto frágil, que a tudo isso disfarçava. Dava a ela um ar de menina, embora já estivesse com seus trinta e seis anos. Gostou do que viu e ouviu. Mas propôs várias mudanças. Isso iria causar algum frisson na empresa, mas eram possíveis e muito inventivas as propostas. Eu também gostei daquilo. Desafio. Havíamos nos entendido.

Sem muito mais a perguntar, após alguns minutos de consultas ao seu e-mail pessoal, ela se levantou e me disse que o jantar nos esperava. Fiquei surpreso. Ela notou. Com um sorriso mandou a pergunta: "Não é casado, é?". Gelei, com aquele sorriso irônico. Nunca presenciei nada igual. Ela colocou a mão no meu ombro e disse simpática: "Vamos, são negócios...".

Saí do escritório confiante. Não imaginava que seria convidado para o jantar. Fomos até a piscina, onde bebemos uma taça de champagne. Ela queria saber do ambiente na empresa. Como era o comportamento da equipe. Quais eram nossos talentos. Admirável!

A cada momento me sentia mais a vontade. Ela tinha um sorriso lindo, encantador, sexy, infantil e cativante. Sorria com os olhos. Mesmo depois de tantos transtornos. Uma mulher forte. Revigorada.

O jantar era quase temático: comida japonesa. Um canto da casa que pareceu especialmente criado para aquilo. Tudo nos maiores padrões de fidelidade à cultura oriental. Não sou fã daquela culinária, mas o jantar estava saboroso. Ela fazia questão de servir e indicar o que comer.

Ofereceu-me salmão, no seu "hashi". Mordi um pedaço e ela comeu a parte restante. Quase engasguei!...

(continua em próxima postagem.)


Um comentário:

  1. Essa historia com toda certeza será muito interessante e quem sabe dê muitos frutos... rsrsrsrs
    Adorei e quero dar muitos palpites....
    beijos, te adoro...

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