domingo, 25 de outubro de 2009

Desejo (parte dois)

...aquilo não estava acontecendo. O que significa tamanha intimidade? - era o meu questionamento.

Tentava demonstrar uma postura madura e segura. O encantamento não deveria ser maior do que o respeito e a admiração profissional. A pergunta veio cortante como a lâmina de um samurai:

- O que você vê? - ela fez um sinal com a mão direita descrevendo seu corpo.

Um silêncio eterno. Uma pane mental que pareceu uma eternidade.

- Vejo você! - respondi da forma mais cínica e descomprometida, ajeitando o nó da gravata.

Uma gargalhada divertida provocou um arrepio em minha coluna. Aquela mulher estava me testando. A minha paciência, inclusive. Nunca me senti muito confortável em situações de assédio. Havia algo a ser decifrado em todos aqueles sinais. Uma mulher com todo aquele estilo, não estava exatamente se expondo. Sim, havia algo estranho.

- Você entendeu a pergunta. Não está confiante o suficiente para descrever a mulher à sua frente? - isso foi a pura crueldade feminina, que ela exercia com sabedoria.

- Tem uma mulher à sua frente, não tem? - Clara estava incrivelmente sensual e determinada a me constranger.

- Não, Clara! Não tem. Eu vejo alguém a quem devo satisfações profissionais: resultados financeiros. E ponto! - aquilo me pareceu demais, mas precisava dizer.

- Nós ainda estamos trabalhando? - ela continuou a ofensiva - Achei que você estava totalmente relaxado.

Clara levantou-se e veio para o meu lado. Um calor repentino percorreu meu corpo. A proximidade com uma mulher inteligente, lindamente sensual e intrigante, me deixava ansioso. E ela em momento algum pareceu hesitar naquilo que me parecia ser sua intenção maior: sedução.

Ela pegou a minha mão. Fez uma análise da palma. Olhou detidamente os dedos e as envolveu com suas mãos, transmitindo um calor impressionante. Clara parecia hipnotizada. Seus olhos brilhavam com uma intensidade indescritível. Seu corpo, muito próximo, irradiava uma energia envolvente de sensualidade. Um perfume exótico tomava meus sentidos e me guiava por sentimentos indecifráveis, que eram um misto de desejo, medo e excitação. Ela soltou seus sapatos, usando os próprios pés. Levantando minha mão, enlaçou seu corpo com meu braço e recostou sua nuca no meu peito. Fez com que seus seios fossem levemente pressionados pelo meu braço, que se postou em diagonal no seu corpo. Deslizou seu braço esquerdo pelo meu abdômen e sua mão pousou na minha perna esquerda. Ela estava de costa, com parte do seu corpo sobre o meu. Eu podia ver seu rosto suave e inebriado. O nariz, delicado e afilado, fazia um sutil movimento na respiração, em compasso com o tórax, que inflava a cada movimento. Seu seio firme elevava meu braço direito, agora pousado no prolongamento do seu ventre firme e macio. Ela apertava levemente meus dedos e fazia carinhos suaves na minha mão. Colocou a palma sobre sua barriga e fez com que eu percebesse um muito leve movimento do seu quadril, em elevação discreta. Num gesto de acomodação, elevou seu corpo até que seu rosto ficasse muito próximo ao meu. Seu perfume detonou todos os meus sentidos. Eu já queria aquela mulher. E esse sentimento pareceu existir desde o segundo anterior ao da criação dos tempos. Mas uma ponta de racionalidade era necessária, para que nada perdesse o controle e causasse dano irreversível àquele clima fantástico.

Sua mão fazia movimentos laterais sobre minha perna esquerda. Deslizava para a parte interna da coxa e provocava uma excitante sensação.

Foi muito mais forte. Minha mão subiu pelo seu ventre e acariciou seu seio. Seu rosto voltou-se para o meu e nos beijamos. No início, suavemente. Apenas os lábios se tocando. Sentíamos o sabor de cada um de nós. Ela virou seu corpo na direção do meu e sua perna direita ficou sobre a minha. Escorregamos nossos corpos e ficamos deitados. Parte do meu corpo sob o dela. Nossos beijos eram intensos. Amamos-nos. Momentos intensos de desejo e paixão. Entregamos-nos totalmente aos carinhos. Tínhamos a química perfeita e os sentidos apurados. Nosso suor e saliva se misturavam em um néctar afrodisíaco a nos alimentar com vigor intenso.

Amanheci só.

Não me situei, por instantes.

Logo, a condenação do ato. “Não devia ter acontecido!". Senti-me usado. Um fraco e inconsequente.

Estava nu e sentia frio. Um vazio me consumia...

- Bom dia, meu amor! - ouvi a voz de Clara, que estava de pé e trazia uma cesta com pães, café, frutas e geléia.

- Sabe que temos muito trabalho hoje, não sabe? - disse ela, me beijando os lábios com suavidade.

- Suas roupas estão prontas. Vamos tomar nosso café traquilamente. A diretoria se reunirá em duas horas e meia. Espero que você esteja se sentindo bem e tranquilo. Temos muito tempo para esclarecer tudo isso. Sei que ouve um momento mágico e você está totalmente confuso...

- Clara! - interrompi com alguma firmeza - isso não devia ter acontecido, creio eu. Foi tudo maravilhoso. Mas parece que está direcionando minha vida, além do que seria o normal no campo profissional.

- Não! - ela falou com calma, colocando o indicador da mão esquerda nos meus lábios - sei tudo sobre você. Sei, muito mais agora, que o amei de verdade. Meus planos não são por esta noite. E nem simplesmente por ter me encantado por você. Meus planos são para uma vida que pretendo para mim. Eu apenas estou convidando você a fazer parte dela. Mas terá que tomar uma decisão difícil. E sei que um grande homem dará o passo que julgar o mais adequado. Como disse, temos tempo. A reunião será aqui. E nada se decidirá agora. Neste instante quero estar com você, como uma mulher feliz e realizada. O mais virá logo. Mas com muita segurança e tranquilidade. Tem um grande desafio em sua vida, meu querido. Espero que possa tomar a melhor decisão - e colocou uma fatia de pão com geléia em minha boca...

(continua em uma próxima postagem)

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