domingo, 18 de outubro de 2009

A saudade do nunca mais saber ou sentir...


Ainda ontem passei por lá.

Revi as paredes que ouviram nossas conversas, discussões, frases de amor; revi a cozinha de momentos de aconchego em que me alimentei de ti; revi a cama de lágrimas quentes no travesseiro, de suores cansados, de entregas sem tempos ou limites.

Agora me vejo aqui frente a um corpo inerte e desnudo, fixo da rigidez completa e generalizada, um olhar midriático a me fitar, conjuntivas secas e córneas opacificadas em um sem fim de mensagens que não consigo decifrar; orifícios naturais da face que não mais me ouvem gritar – volte, venha -, não mais me beijam com volúpia, não mais me cheiram com desejo insaciável, neles. Só a secreção sanguinolenta se apresenta; o tórax simétrico e sem lesões não mais acelera com as minhas palavras, escoriações antes avermelhadas, são meras lembranças pardacentas das brincadeiras recentes de amor; o abdômen que aconchegou meus cabelos sobre ele esparramados, não vibra mais das risadas, não se move mais com soluços do pranto incontido; a genitália externa masculina, antes viril, quente e pulsátil, agora limitada a uma frieza sem gozo, sem jato, sem semente de vida; membros superiores que antes me abraçavam com vigor, que acarinhavam com delicadeza, imóveis, congelados em um último momento de aceno; membros inferiores sem movimentos anormais; aqueles contorcionismos típicos para me envolver , para me rodear, me fazer chegar ainda mais perto e mais fundo; o dorso onde tantas vezes me deitei e me esqueci, só mostra livores de hipóstase. Mas em um momento eu vi, Sinal de Benassi, em região temporal, orifício de entrada de projétil de arma de fogo com fuligem nas bordas, sinal de bonnet, tronco de cone na tábua óssea e vi mais além, vi ainda a pólvora na mão.

E como se nada mais me restasse descobrir, a certeza da perda da vida pela vontade. A saudade. Mas essa Saudade? Isso é saudade diferente. É dor que tira o fôlego, que carrega a alma, que destrói a mente. É a saudade sem perdão, é a saudade do nunca mais saber ou sentir – o que quer que seja - se está bem ou mal, já não mais está somente.


Drª. "F"

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