sábado, 7 de novembro de 2009

A voz da criação.

A luz gigantesca descia sobre mim. Havia o temor de que um calor intenso me atingiria. Mas a onda de energia era agradável e dava a sensação de paz. Desenhos distorcidos; indecifráveis; inimagináveis, confundiam-me e encantavam-me.


Uma fração do segundo foi suficiente para que pudesse ver minha vida em alta definição: irmãos, pais, amigos e inimigos. Aquilo tudo parecia incrivelmente aterrorizante. O medo aumentava, à medida que aquela luz me envolvia. Flutuava em direção a uma imensa colméia de diamantes. Pelo menos era assim que se parecia aquele amontoado de luzes brilhantes e incrivelmente lindas.

Num instante estava envolto em um gel transparente e perfumado. Não ouvia vozes. Mas era possível comunicar-me com “alguém”, que transmitia conforto e segurança. Algumas dores, aos poucos, desapareciam. Sentia um enorme bem estar. Parecia que um elixir restaurador penetrava pelos poros do meu corpo. Mas eu não conseguia, de fato, perceber um corpo. Não um corpo! Mas uma densa névoa azulada, na qual repousava tudo o que havia em mim. Era como se nada houvesse existido de mim, anterior àquele momento.

Um vapor de tom prateado preencheu o ar. Com ele, imagens. Meus filhos. Ainda crianças, brincavam alegremente. Minha esposa os chamava. Podia ouvir nitidamente a ordem: “venham tomar banho para esperar o papai. Hoje é o aniversário dele”.

Meu quadragésimo aniversário. Naquele dia fiquei até altas horas na rua com os amigos. Havia esquecido a promessa de jantar com a família. Via os meninos, quase adormecidos, num esforço incrível, aguardando a minha chegada, que não aconteceria. Minha esposa, triste, insistia no celular. Mas a minha ignorância fazia com que não o atendesse.

Segundos depois pude ver o corredor da empresa em que trabalhava. Uma roda de pessoas confabulava, e alguns sorrisos irônicos aconteciam. Percebi que o tema era a minha demissão. Logo, me vi saindo do escritório da gerência. Fui imediatamente confortado com palavras de incentivo e promessas de colocações em outras empresas do mesmo nível daquela.

Meus pais apareciam agora. Doentes e sozinhos. A mãe, com lágrimas nos olhos, folheava um álbum de fotografias. Acariciava uma foto em que apareciam meus irmãos e eu, em dia de festa. Inclinou-se na direção de meu pai mostrando-lhe a fotografia. O “velho” sorriu sofrido e secou uma pequena gota de lágrima que repousou no canto de seu olho.

Meus filhos voltavam à cena. Brincavam no quarto e subitamente pararam. No quarto ao lado, uma forte briga, entre eu e minha esposa, os assustou. Saíram para a sala e cruzamos no corredor. Eles sorriram e os ignorei. Saí como uma besta fera, porta a fora. Eles se abraçaram e foram para perto da mãe, que chorava.

Anos à frente! Houve um avanço naquelas imagens. Minha doença estava em estado terminal. Os filhos me acariciavam. Os netos brincavam com meus dedos. Minha esposa já havia falecido. Uma dor extrema me atingiu. Pude perceber uma luz me envolver e vi que todos choravam em triste lamento.
Repentinamente todo aquele gel se desfez. Uma brisa fresca percorreu o meu... ser? Não sei como definir. Um jardim espetacular repousava em um gramado especialmente verde. Estava triste e infeliz. Um grande vazio me acompanhava. Estava completamente perdido e desorientado. Remorso. Desespero. Compaixão de mim. Lamento silencioso e profundo, de arrependimento por perdas irreparáveis. O tempo. Aquele que nos marca, sem que consigamos dar a ele a devida atenção. Irremediável. Finito. Concreto.

Assim, vaguei percorrendo cantos em que a paz me atormentava. Esta paz que não é minha. Não a mereço. Não a quero. Mas teria castigo maior? Paz, sossego e solidão. Abandono. Culpa.

Estando deitado sob frondosa árvore, e quando maior era a dor de todas as perdas, ouvi uma voz familiar: “querido, quanto esperei até poder vê-lo” – era minha esposa.

Minhas lágrimas escorriam descontroladamente. Um choro que acontecia profundo. O choro da alma. O choro do homem só. O choro do homem errante. O choro de todos os equívocos. O choro do reconhecer-se a si mesmo.

O amor vindo daquela energia dourada, que era minha esposa, me fez sorrir entre prantos. Amava-a tanto e tanto a desprezei. E agora precisava de seu perdão, do seu carinho. De dar-lhe amor. Fui atraído para aquela luz dourada. E caí em prantos implorando perdão.

Então, ouvi:

“Nada poderá vos afastar. Fui Eu que vos uniu. Confie. Não vos afastareis, senão por Minha vontade. Agora, tem a oportunidade de aprender. Aprenda! Eu os criei para vos amarem uns aos outros. É tão fácil atingir a felicidade. Porém, dão espaços ao egoísmo, ambição, competição e vaidades. Ao glamour e ao sucesso, que a todos querem exibir. E se destroem. Vá, meu filho. E aprenda com o amor, que nasce daqui, e é a fonte da Minha criação. Não despreze essa força poderosa que possui por Minha vontade. Só a ela se renda e só por ela renuncie. Deixo-vos entregues ao seu aprendizado. Eu os amo. Cuidem-se e amem-se”.


(Anselmo Verissimo)

2 comentários:

  1. Simplesmente ... lindo!! Me emocionei .... como te chamava carinhosamente...Mestre.
    bju e otimo fds

    ResponderExcluir
  2. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir

Seu comentário é muito importante. Avalie, critique, fique a vontade.