quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Saudades.

Estamos muito bem aqui. Eu e Neuma, querida de anos, sua luz. Tudo certinho por aqui, com a graça do Senhor. Temos de tudo. A granjinha tá linda que só vendo! Neuminha fez uma galinha caipira, no jeito. “Cê” ia se fartar! Nossa Neuma bem lembrou...


E as hortaliças? Que “belezura”! Deve de tá com água na boca que eu sei. Almoçamos falando n’ocê. Neuma molhou os olhos duas vezes. Mas, durona, disse que foi cisco. Veja só! Capitão tá danado de ranzinza. Êta cãozinho bom! Mas tá velho, o bom amigo. Vai deixar saudade. Mas não sai de nosso pé aqui no alpendre. Aliás, tomamos aquele café gostoso que só Neuminha faz. Ela colocou aqueles biscoitos amanteigados e nós papeamos até... O assunto? De um tudo, mas principalmente sua vida. Ela estava com nosso bauzinho de fotos. Tinha uma em que você vestia apenas uma fraldinha e esticava os braços com cara de “choramingo”. Ela lembra que nesse dia ocê pedia prá ela não sair prá roça. A querida molhou os olhos de novo. Mas a vida era dura naqueles tempos. Nossa! Neuma deu muito duro comigo prá criar “ocê”. Nem sei se eu estaria vivo se não fosse ela.

Estamos muito bem aqui. A roça tá bem cuidada, as duas vaquinhas dão leite do bom e os bezerrinhos vão ficar uns baitas...

Nós vamos ficando por aqui, filho. Sei que ocê é um bocado ocupado nessa sua vida de doutor. Deve de tá cansado, né filho? Nessa “cidadezona” tem muito prá se fazer. Fica com Deus e Jesus te guarde, filho querido. Não se preocupe, que aqui a gente tá cuidando direitinho um do outro. Ninguém se resfria ou tem dor de cabeça. A única coisa que dói um pouco é essa danada de saudade. Mas isso é coisa que dá em velho, filho. Liga não! Besteira. Sabemos que sua vida é muito ocupada. Nossa Neuminha quer saber: quando vamos ganhar netinhos?

Filho, nossa vida é muito boa e rezamos pela sua saúde e da Marli, sua mulher. Tudo vai ser bom na vida d’ocês. Tá tudo muito bem aqui. Nossa saudade é grande. Uma horinha que der cê aparece, tá?

Êta saudadezinha danada de boa. Fica com Deus, meu filho. Aqui, os anjos nos guardam, cuidam e guiam. Fique bem e seja feliz!

Papai e Mamãe.



E assim, aquele homem muito ocupado leu, mais uma vez, a carta amorosa escrita por seus pais. Carta que não chegou a ler em seu devido tempo. E, com um abraço afetuoso olhou para o filho, que perguntou num tom entristecido:

- Papai, seus olhos estão molhados? – colocando o dedo indicador na lágrima que descia pela face do pai.

- Sim, meu amor. Como os olhos do vovô e da vovó – respondeu triste, o homem ocupado.

(Anselmo Verissimo)

4 comentários:

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  3. Hanna, querida, o texto foi elaborado por mim. Passa um pouco pela vida de meus pais. E da nossa ausência, imposta pela tal responsabilidade profissional(?), dentre outros afazeres...coisas desse tipo. Nos colocando um pouco no lugar deles, que sofrem com a saudade, saiu o texto. Mais uma vez, muito obrigado pelo seu carinho e atenção para com meus escritos. Sabes o quanto prezo seus comentários...

    Beijo, Anselmo

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  4. Como sempre Anselmo, voce escreve coisas lindas, adorei o texto, e revivi alguns momentos lindos da minha adorada cidadezinha
    do interior, onde nasci e fui criada.
    Oh saudade gostosa.
    Mais uma vez parabens meu querido!
    Beijos

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