terça-feira, 23 de março de 2010

A vida se vai.

A realidade me engole a carne.
Vida seca, real, ácida, que vejo sucumbir.
Vida que deu vida e que foi fonte de amor,
Agora lentamente partindo, num semblante de dor.

Amor que se expôs ao castigo do tempo e da teimosia,
Rebelando-se ao mais infinito amor,
Que com tanto mais amor o protegia.

Segue vida seca, que ensina e maltrata.
Faz a tua obra segundo as escolhas que te oferecem.
Ofusca o brilho do olhar, que fora poderoso,
E abre o coração duro, antes orgulhoso.

Vida que consome a carne e se alimenta de vida.
Que não tem piedade do homem rude e ignorante que a desprezou,
Mas que ainda assim, vidas com amor gerou.

Vai finalizando a tua arte, vida seca.
E faz, naqueles que te observam, a grande marca do tempo.
Espalha pelas eras a tua sabedoria e tirania:
"Nas tuas escolhas, não erras."

Vida que vai tirar uma vida que me deu vida,
Apenas alivia aquela angústia incontida,
Um rosto triste a observar a dor, com piedade.
O olhar vazio de uma vida que será saudade.


(Anselmo Verissimo)

Um comentário:

  1. Poesia que nos faz refletir... entre percas, saudades, e a propria vida que escorre pelos dedos, que teimamos em contê-la mas que o tempo degenera ou nos tira sem o aviso de partida. Bonita, triste e melancólica poesia...
    bju

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