sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Desejo (final)

...(desejo (post de 20/09/09);desejo (parte dois) (post de 25/10/09)...continuação.

Tomamos o café em silêncio. Nos olhamos todo tempo. Atração, encantamento, confusão. Estava permitindo que o rumo de minha vida fosse traçado à revelia de minhas intenções. Nunca permiti que isso acontecesse. Sei de minha competência e dedicação a tudo que diz respeito à minha profissão. Mas, estaria optando pela acomodação e oportunismo?

Meu celular tocou e despertamos para a realidade à nossa volta. Minha secretária estava preocupada, pois ouvia rumores de uma reunião importante da qual eu deveria participar. Disse a ela que estava tudo bem e que já me dirigia para o local da reunião. Clara percebeu com quem eu falava e fez sinal para que parasse por um instante:

- Diga a ela, que o arquivo que me enviou na semana passada foi perfeito. Fico muito grata - Clara, falou de maneira intrigante.

Repassei o recado me levantando e saindo em direção a uma saleta longe da mesa do café. Perguntei sobre o tal arquivo e minha secretária não pode responder de forma esclarecedora. Mas, como se já soubesse o que havia ocorrido, disse que estava orgulhosa de trabalhar comigo. Agradeci e desliguei contrariado.
Sentando-me à mesa, olhei indagador para Clara.
- Que arquivo? - falei de forma rude.

- Sua vida. - ela respondeu sem me olhar.

- Como ousa... - ela me interrompeu se levantando e espalmando as duas mãos sobre a mesa, virando uma xícara de café.

- Ouso o quanto quiser - Clara parecia furiosa. Ouso, pois minha vida foi feita de sacrifícios e ousadias. Ouso, pois não vim ao mundo para ser uma pessoa qualquer. Tenho sonhos e desejos pelos quais luto lealmente. Nunca usei de artifícios condenáveis para conseguir o que quero. Mas quando estou determinada a atingir um objetivo luto e uso as armas que possam ser utilizadas. Mas, jamais! Jamais faria mal a quem quer que seja. Entendeu? - finalizou com o indicador em riste e lágrimas nos olhos.
Procurei ficar calmo, sem desviar o olhar fixo que mantive no olhar dela. Bebi um pouco de café e passei mais geléia em uma torrada. O ar foi ficando mais leve. O semblante de Clara tornou-se calmo e plácido. Ela sussurrou desculpas. Permaneci como estava. O olhar fixo no dela e uma decisão tomada segundos antes, logo após o destempero de Clara.

Conhecia aquela pessoa. E era do tipo que você se interessa e depois paga uma conta muito pesada. Engendrou uma trama que estaria me levando até que ponto? Seria ao ponto em que eu pretendia chegar em minha vida? Era o sexo a nortear aquela situação inusitada? Um belíssimo par de olhos e uma sensualidade estonteante a me guiar?

Perguntei onde estava minha roupa e se poderia tomar um banho. Clara, de volta àquela gentileza cativante, pegou em minha mão, levando-me até ao seu quarto. Apontou para as roupas e mostrou-me a luxuosa suíte. Um requinte digno dos mais bem sucedidos empresários. Ela saiu e falou para que ficasse a vontade.
Tomei uma ducha rápida. O que tinha a fazer precisava ser feito logo. Vesti as roupas e liguei para o escritório. Como eu suspeitava a secretária não atendeu ao telefone. Na verdade deveria estar a caminho da reunião que aconteceria ali. Ótimo - pensei.

Desci, passando próximo ao escritório, e pude ouvir a voz de Clara conversando com algumas pessoas. Fui para a imensa cozinha da casa e pedi um copo com água, com a desculpa de que pretendia tomar um remédio. Visualizei a saída de serviço. Rondei pela cozinha como se estivesse acelerando o efeito do suposto remédio, e bebi aquela água com muita lentidão e drama. A copeira, com ar preocupado, saiu. Era a deixa. Com certeza foi alertar a patroa sobre meu suposto mal estar. Já não mais adiantava, pois ganhei a rua arborizada e o táxi - que chamei, tão logo identifiquei que minha secretária não se encontrava no escritório - me aguardava no local combinado.

- Senhores, boa tarde - Clara iniciou a reunião com duas horas de atraso - desculpem a demora, mas fatos relevantes mudaram o rumo de minha vida e desta empresa. Nos planos que havia traçado para este dia, constavam uma profunda reestruturação na diretoria executiva; a abertura de capital e a chegada de novos sócios; e também um desligamento de minhas atividades operacionais, ingressando no conselho de administração que se formaria. Sim, se formaria. Todos os planos serão revistos e as metas reavaliadas. Recebi uma carta de demissão do nosso diretor financeiro, que era peça fundamental na reestruturação que estava em curso. Ele seria o Diretor Presidente da nova empresa que se formaria, com todos os poderes delegados por mim e pelos demais sócios. Infelizmente, para nós, motivos pessoais o afastaram de nossa empresa. Lamentamos. Agora, a nova sociedade que estava em andamento deverá fazer novos estudos para redefinir o modelo administrativo. Repito que nosso diretor financeiro era peça fundamental em nossa administração. Conto com a compreensão de todos e peço que mantenham o empenho para que continuemos a liderar o nosso ramo de atividades, como vem sendo até aqui. Obrigado a todos.
Clara saiu apressada dos jardins onde havia montado toda a apresentação daquele dia frustrante e foi direto para o seu quarto ler o e-mail da minha demissão. Chorou muito e, relutante, fez a ligação que pedi fosse feita quando tudo estivesse terminado.

- Sou eu, Clara - a voz embargada.
- Foi tudo muito agradável, Clara - eu disse com carinho. Mas você não tem o direito de dirigir as coisas da forma como fez. As pessoas não são peças de xadrez. A vida das pessoas não é um tabuleiro do jogo, em que você pode colocá-las onde bem entender. Ou, uma história mal escrita e confusa com a qual você se diverte e desdenha dos próprios sentimentos. Não me deixo impressionar por posições e poder. Faço disso apenas um trampolim para adquirir meu sustento e obter, apenas, o que me basta. O mais é amor ao ofício e dever ético. Nada mais. Ninguém sabe de nada, Clara. Não acredito em tudo que me dizem, apenas por vir de quem vem. Acredito, sim, na história das pessoas. E a sua chega a impressionar. Mas você se confundiu. Você acredita que pode tudo em nome de suas melhores intenções e de uma história que a qualifica. Pois bem, não é assim. Uma vida é digna, por aquilo que vale para cada um. E quando alguém faz sua vida valer a pena, jamais permitirá que outros, seja por que motivo for, tomem de suas mãos as rédeas. Eu quase ia me esquecendo disso, Clara. Impressionei você, pelo amor que tenho pela vida que construí. E você pretendeu reconstruir algo que nunca serei, e nem pediu licença. O seu amor pela minha vida vai perdurar. Pois ela é uma história bem escrita, que nunca se apagará, pois é única e verdadeira e não parte de uma ilusão ou fantasia. Peço desculpas pelo que não pude ser para você, mas fico feliz pelo que sou para a vida: Eu mesmo. Assim! Simples. Sem limites para viver como eu achar conveniente. Seja feliz e acabe este jogo como se tivesse dado empate. Nem eu, nem você. Adeus, querida.

(autor: Anselmo Verissimo)