quarta-feira, 24 de março de 2010

Lembranças.

Lembro-me bem quando ele chegava todo de branco, a pele clara, viçosa e suada de mais um dia de trabalho. Subia correndo a escadaria do sobrado em que morávamos - lá na Barata Ribeiro, se não me engano. Eu, no portãozinho de ferro, assim que torcendo para ele vencer aquela desenfreada corrida contra a saudade. Minha mãozinha por entre as grades a atraí-lo, tentando ajudar na subida. Ele vencia sempre! E ainda dava, de lambuja, um salto sobre o pequeno portão e me trazia para o seu colo quente, suado. Ainda sinto o pulsar do seu coração contra meu peito. Batidas fortes, que tenho certeza não eram apenas do esforço físico, mas também de sua emoção de homem feliz que chega ao lar. Daquele que cumpriu sua obrigação e agora volta para cuidar das pessoas que ama.
Ele me dava a comida "fresquinha", preparada por minha mãe, e depois sentava no sofá e colocava minha cabeça em seu colo. Falava de coisas que não lembro, mas que bem podiam ser histórias infantis ou apenas conversa doméstica, que minha mãe ouvia de longe. Mas era música para meus ouvidos.
Eu, que o sono teimava em abordar, alí: chupeta na boca, perninhas cruzadas, um brinquedo qualquer em uma das mãos e a outra a fazer "caracol" em seus cabelos. Diz minha mãe, que a ondulação na parte frontal dos cabelos dele foi feita por mim (rs), que com o polegar e o indicador pegava uma pequena mecha de seus cabelos e ficava enrolando. E o sono chegava profundo, tranquilo e seguro.
Eu, estava no colo do meu "velho".