quarta-feira, 2 de setembro de 2015


Do envolvimento ao desenvolvimento

“Do verbo involvere, “rolar sobre”, saiu o nosso envolver, do qual inclusive derivou embrulho”. Naturalmente, colocando-se o prefixo negativo des– antes de envolver, temos desenvolver, que descreve um ato de “desenrolar, permitir a saída ou aparecimento de algo que estava tolhido”.

Interessante a etimologia da palavra “desenvolver”: “Permitir que...”. Permissão para o desenvolvimento pessoal, relações afetivas e outros que se apresentem em nossas vidas. Parte de uma prévia permissão. E também é a negação, ou contrário, da palavra “envolver”, que pressupõe uma decisão pessoal para que se estabeleça um aprofundamento, enlace. Algo que parece robusto, consistente, e ao qual nos permitimos. Permitir. De novo a expressão. Mas, envolver é ocultar e desenvolver é apresentar (fazer surgir).

Então, num relacionamento, o que tem a ver estas expressões? Houve envolvimento e um desenvolvimento da relação a dois? Uma evolução ou aprofundamento? Parece ilógico, sem sentido.

De fato, envolver-se é “entrega”. Um ato de profunda confiança no Ser. É o respeito ao que é. Totalidade. A vibração maior que chega ao coração, estabelecendo a entrega. É pelo sentir. Não se vê restrição alguma. É uma força. Movimento. Vida, pulsando em alta frequência. Não requer pensamento. É atitude. Plenitude. Decisão.

E então oculto. Por quê?

É do Eu interior. Único. Não requer correspondência para que aconteça. Não há parâmetro ou regra estabelecida. O desconhecido não é reconhecido como tal. Um parodoxo.

Num relacionamento em que há entrega pessoal, plena, não há medo de qualquer espécie. O outro “torna-se” em nós e tudo flui. Não se administra. É entrega apenas.

O “desenvolvimento” é a administração do “envolvimento”, da “entrega”. É o que se deve descortinar para esclarecer, trazer à tona, entender e confirmar percepções. Razão? Talvez. Mas requer perda (outro tipo de entrega). Renúncia, em certos casos. Um confronto com o Eu interior, o Ser.

É quando o sentir perde espaço, ou se reforça, pois precisa de prova. As memórias afloram, criam dúvidas. A mente quer entender. Precisa dominar.

“Desenvolver” é mental. “Envolver” é sentimental.

“Desenvolvimento” é palavra, verbo, pensamento. “Envolvimento” é silêncio, profundidade, meditação.

A vida é um desenrolar constante. Desenvolvimento, esclarecimento. Mas também é o Ser envolvido, atuante, presente. Envolvimento é presença! E presença é também viver o “Agora”, o presente momento. E nesse lugar fazemos tudo acontecer. É aí que a vida se estabelece. A plenitude.

Opte pela vida. Pelo seu ser. Ouça sua voz interna. Perceba e desligue-se de suas memórias, padrões e repetições das velhas coisas que nunca se concretizaram como suas.

Envolva-se responsavelmente com você e brilhe para o mundo. Sinta e faça acontecer a sua vida.
(Anselmo Verissimo)